Hoje, em 2022, estamos vivendo um ápice dos extremos, dos excessos e da irracionalidade: na linguagem e nos comportamentos em nossa cultura. Alguns autores chegaram a denominar esse momento que estamos vivendo como “era da pós-verdade ou pós-factual” quando analisam a cultura política atual: pautada mais em apelos emocionais do que na acurácia e na coerência entre o público e o privado, ou no conflito entre informações confiáveis e mero factoides. (Keyes, 2018).
Por exemplo: “Discussões e posições políticas excessivamente emocionais”. Ou, vários exemplos da vida cotidiana:“Aumento extremo do consumo de bebida alcoólica”. “Uso descontrolado, em todas as idades, das novas tecnologias”. “Falar em demasia e escutar pouco”. “O excesso de regras sociais e déficits nas relações afetivas”. “Governos mundiais extremamente populistas e pouco sensíveis às demandas da população”. “A falta de confiança generalizada: nas relações afetivas, nas autoridades e na vida em sociedade”. Estamos diante de diversas crises em múltiplas esferas da vida.
Nesse momento, parece ser promissor voltarmos para os primórdios de nossa cultura. Provavelmente vamos enxergar alguns retrocessos nas práticas culturais atuais. Mas não é essa a intenção dessa reflexão.
Entendemos como produtivo olhar para trás, nos debruçar sobre suas práticas culturais e seus “pensadores” e, assim, buscar luzes para refletir sobre o que temos pensado ou feito em nosso dia a dia, nesses tempos extremos. No mínimo, voltar para esses pensadores, pode ser uma “lufada de ar fresco” em nosso pensamento: já tão contaminado pela avalanche de informações inúteis e desencontradas que recebe de diversas fontes desconhecidas diariamente.
Uma concepção já estava cravada na cultura grega há 2.400 anos. No oráculo de Delfos estava escrito a máxima: "MÉDEN AGÁN", ou seja, “NADA EM EXCESSO". Sócrates e Platão denominavam por “justa medida", o conceito que estava por traz de todas as boas ações.
As “boas ações” eram aquelas em consonância com seus “fins”. E a finalidade suprema estava sempre ligada a felicidade, ou também denominada: “boa vida”.
Eis o “segredo” dos gregos: a vida boa estava sempre pautada pela MODERAÇÃO. E nos extremos estariam as vidas com vícios: distante da felicidade.
O filósofo que mais construiu uma sistematização dessa concepção foi Aristoteles, em seu livro: Ética a Nicomaco. Nele, Aristoteles, formula o conceito de “Mediania”: esse seria o princípio que estaria presente em toda “boa ação”. Ação, que se fosse praticada continuamente ao longo da vida, de modo a constituir um hábito, levaria a uma boa vida: e, por fim, a felicidade.
Já no início da Ética a Nicomaco, Aristoteles parece estar escrevendo para os dias atuais: o excesso e a falta de exercícios, ou o excesso e a falta de alimentos produzem males para o corpo claramente percebido por todos: "O exercício, seja ele exagerado ou insuficiente, altera esse vigor, do mesmo modo que o excesso e a insuficiência de bebida e alimento compromete a boa saúde, enquanto que a moderação nessas matérias, cria, desenvolve e preserva a saúde". (Aristoteles, L. II, 1104b)
A moderação é a base, portanto, para a saúde física. O mesmo raciocínio é elaborado tendo em vista no como os indivíduos se relacionam com suas paixões:
“ Os sentimentos de pavor, de segurança, de desejo, de cólera, de piedade, enfim, de prazer ou sofrimento podem nos afetar ou muito ou muito pouco (…) Mas se experimentamos esses sentimentos no momento oportuno, por motivos satisfatórios, a respeito de pessoas que os merecem, para os fins e nas condições convenientes, nós permanecemos em um excelente meio, e é aí o lugar próprio da virtude. (Aristoteles, L. II, 1105 a)
Para Aristoteles o melhor modo como devemos lidar com nossos sentimentos e emoções converge para o ponto do meio: livre, mais uma vez, dos excessos e ou, dos vícios. Mas, como as pessoas podem conseguir o feito de alcançar a mediania ou o comportamento moderado? Aqui, mais uma vez às ideias de Aristoteles se fazem presentes em 2022. Ele defende que isso pode ser alcançado através da educação. Uma boa educação deve desenvolver nos indivíduos a moderação. E Aristoteles é muito claro sobre como deve se dar a sua pedagogia: “Nós adquirimos as virtudes com uma atividade anterior, como acontece também com as outras artes. Com efeito, é fazendo que nós aprendemos a fazer as coisas que é necessário aprender antes de fazer: por exemplo, tornando-nos construtores construindo e tocadores de cítara tocando a cítara. Pois bem, da mesma forma, realizando ações justas, tornamo-nos justos; ações moderadas, moderados; ações corajosas, corajosos”. (Aristoteles, Livro II, 103.b)
A sua concepção de educação é claro. O aprendiz deve se expor à prática. Repetir: tantos em atividades práticas como tocar instrumentos e construir, como para desenvolver comportamentos éticos. O aprendizado de comportamentos éticos seria o desafio para as relações do indivíduo com a comunidade, de modo a fazer com que ele exerça seu fim como cidadão. Seu fim político e ético: “Significava que o desafio ético era encontrar a mediania possível, desejável, sem nenhum apelo ou pré-condição, de modo que a moralidade ganhava o arrimo e o peso da comunidade política, na exata medida em que o indivíduo moral era o animal político. Os indivíduos reconheciam os próprios limites e os limites inerentes às situações em que atuavam; logo, a ética permitia ao indivíduo não apenas agir bem, mas, e isto é fundamental, identificar as condições da sociabilidade, e assim agir na direção de enformar os desejos e vontades que se coadunavam à reta medida, isto é, ao seu próprio existir.( Chasin, p. 209).
A “justa medida” ou “mediania” estão presentes em todos os bons comportamentos ou virtudes, e as faltas ou excessos, se apresentam nos vícios. De modo que, “a mediania significa “a vitória da razão sobre os instintos”. (Reale, p. 205)
Uma boa educação deveria produzir a noção de limites, o conhecimento das circunstâncias, e a avaliação do momento do sentir e das ações para se alcançar a moderação necessária exigida pelo comportamento ético.
Um exemplo citado por Aristoteles encontra-se no caso da “coragem”. A coragem encontra-se no meio entre dois extremos: a covardia e a temeridade.
Na covardia, o medo encontra-se em demasia, de tal modo que o indivíduo não consegue enfrentar situações de perigo. Essa forma de ser pode colocar a comunidade ou às pessoas próximas em situações mais frágeis: já que à covardia leva a fuga e ao abandono dos companheiros em contextos de batalha.
A temeridade, por sua vez, é a ausência de medo. E, do mesmo modo, a falta do medo pode colocar o próprio indivíduo ou a comunidade com a qual se relaciona em situações de risco. Um exemplo, é do guerreiro que se coloca na frente no campo de batalha: corre na direção do inimigo sem contar com a ajuda de seus companheiros ou pensar na segurança deles. Tanto a covardia (medo em excesso), como a temeridade (ausência do medo) são prejudiciais para o indivíduo e para a comunidade que o cerca.
A coragem carrega o medo na medida certa. Um medo que ajuda a perceber e cuidar dos perigos que o mundo oferece. Medo que produz atenção e cuidado consigo mesmo e com os próximos. Por isso, a coragem com moderação é desejada por todos, e é concebida como um comportamento ético. Aristoteles oferece essa mesma forma de tratamento a outras virtudes.
A temperança é vista como a possibilidade de moderar às paixões: mais uma vez fixada nem no excesso, nem na falta das paixões. A temperança ocorreria através do uso da racionalidade humana sobre a irascibilidade animal, de modo a ser o que diferenciaria o homem dos animais.
Do mesmo modo, Aristoteles refletiu sobre outras virtudes: a generosidade, o justo orgulho, a calma, a amabilidade e a modéstia. Mas é na prudência ou sabedoria (phronesis) que Aristoteles nos traz luz para refletirmos sobre o momento atual. “A sabedoria consiste em dirigir bem a vida, ou seja, deliberar de modo correto”. (Reale, P. 205)
Mas o que é o correto?
Mais uma vez a mediania é utilizada aqui: o correto não é aquilo que favorece só a mim, ou apenas os outros, é a justa medida entre o privado e o público. A sabedoria deve ir além das paixões, da impulsividade, do descontrole. Deve seguir o seu fim e deliberar para o justo: simplesmente porque o justo caminha para a felicidade. Os aspectos impulsivos e egoísticos levam aos interesses individuais, que, por sua vez, se desviam dos interesses comunitários. “ O homem prudente deliberava não apenas especificamente sobre coisas particulares ou privadas: era obra do homem prudente deliberar bem sobre coisas boas e úteis enquanto partícipe do universo comunitário, de modo que bom e útil eram possibilidades ou condições que se enraizavam num contexto, ou melhor, na comunidade. Aristóteles, pois, reconhecia na prudência um valor essencialmente público, na medida em que a deliberação do homem prudente se articulava no enlace entre vida privada e vida pública, vale dizer, o homem prudente era verdadeiramente ético na medida em que sabia deliberar atando e unindo os interesses comunitários e a vida particular do cidadão. Deste modo, a prudência era virtude efetiva quando resultado da conexidade entre vida privada e pública, ou seja, a felicidade - que era meta do homem prudente - só se efetivava se o público e o privado coexistissem na interação de propósitos”. (Chasin, P.214)
Com Sócrates e Platão aprendemos que a arte do dialogar de forma aberta: humildade para falar na hora certa, ouvir atentamente o que o outro tem a dizer e, fundamentalmente, aceitar bons argumentos e sintetizá-los com o que eu sabia antes do diálogo são ensinamentos que estamos carentes em tempos de redes sociais e posições extremas: intrinsecamente coladas às emoções.
Através da argumentação e reflexão clara de Aristoteles, dentro de um universo de reflexões sistemáticas e profundamente intrincadas, temos o insight de que devemos aprender a encadear melhor nossos argumentos: buscar sempre contra-argumentos que nos ajudem a refinar nossas concepções e nos desprender daquilo que não passar pelo crivo da “razão”.
O conceito de mediania, ligado a “phronesis”, exige que não aceitemos o caminho fácil dos extremos: fácil por estarem em consonância com os desejos, impulsos e o imediatismo próprios da contemporaneidade. E que devemos continuar o caminho da reflexão mesmo que seja mais difícil. “Ponderar” (próprio da sabedoria) significa olhar atentamente por todos os ângulos, mesmo aqueles que não estamos emocionalmente dispostos a ver. Daí deriva a boa escolha, pois está amparada na observação, reflexão e na coragem de olhar para o que muitas vezes se distancia do que eu gostaria de ver.
Nada de excessos, mediania, sabedoria e a coragem para ir além em nossas reflexões: realmente temos muito a aprender com os gregos do início de nossa civilização!
Wilton de Oliveira ITECH-Campinas
Referências:
Aristoteles (1973). Ética a Nicomaco. Coleção: Os Pensadores. Abril Cultural: São Paulo.
Chasin, Milney (1997) Política, Limite e Mediania em Aristoteles. Tese apresentada em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Keyes, R. (2018) A era do pós-verdade: desonestidade é enganação na vida contemporânea. Ed. Vozes.
Reale, G.; Antiseri, D. (1990) História da Filosofia: V. 1.. Ed. Paulus: São Paulo.
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Muito bom a obra desses pensadores, muito devemos a eles sobre o caminho do bem e da felicidade, muita moral e ética.