“A descoberta de 10 comportamentos necessários para resolver crises psicológicas!”

Em 1942, em comemoração a um jogo de futebol entre Harvard vs Yale, muitas pessoas estavam em uma boate em Boston, chamada: cocoanut grove. Mas, uma catástrofe estava para ocorrer. Um incêndio se alastra rapidamente e a única saída estava bloqueada. Em torno de 500 pessoas morreram e muitas ficaram feridas.

O roteiro de uma tragédia estava escrito na vida de muitas famílias: perdas imediatas inesperadas, uma ampla diversidade de sofrimentos: luto, tristeza, medo, ansiedade e o surgimento de problemas psiquiátricos: transtornos depressivos, estresse pós traumático, transtornos de ansiedade e surtos psicóticos.

Esses fenômenos psicológicos e psiquiátricos em massa podem promover o desenvolvimento do conhecimento de dimensões desses problemas, que em contextos normais do cotidiano os pesquisadores não têm acesso: tanto os fenômenos psicológicos em si, como o surgimento de tratamentos: procedimentos e técnicas mais eficazes para lidar com os sofrimentos.

Erich Lindemann formou-se em psicologia e medicina em Düsseldorf, na Alemanha, em 1927. E mudou-se para os Estados Unidos em 1929, após ganhar uma bolsa de estudos para a Harvard Medical School.
Linderman, se envolveu profundamente, e desenvolveu estudos sobre a tragédia do “cocoanut grove”.
Através de seus estudos desenvolveu a tese de que a saúde mental está ligada a capacidade de cada pessoa de lidar com perdas: pequenas ou grandes. Isso se deve ao fato de que a história de cada pessoa é sempre marcada por perdas impostas por contingências da vida. Aqueles que elaboram os lutos de forma natural podem voltar a ser integrados a uma vida sócio-afetiva saudável. Por outro lado, as pessoas com dificuldades de lidar com essas perdas, desenvolverão problemas emocionais e/ou físicos.

Entende-se o termo “crise pessoal” como uma experiência em que os repertórios emocionais, cognitivos e comportamentais entram em colapso. De tal modo, que a pessoa não consegue resolver essa experiência de sofrimento pelos próprios meios: sente-se fragilizada e entregue ao sabor das contingências que produziram a crise.

Os comportamentos descritos, nos estudos de Linderman, para o enfrentamento de situações de crise, foram fruto de seus estudos. E foram amplamente usados para tratamento de pacientes em crise: estruturados para Psicoterapia Breve. Mas, o mais significativo desses trabalhos, é que esse modelo pode ser aplicado em Psicoterapias diversas, inclusive as de longo prazo.
Tais comportamentos podem servir como ponto de referência para o foco terapêutico, no desenvolvimento de repertórios, que sejam mais eficazes para resolução das mais diversas formas de queixas.

O primeiro comportamento descrito (“Reconhecer que está em crise”), refere-se ao que denominamos como o “repertório de entrada” básico para qualquer forma de ajuda terapêutica. Trata-se de um primeiro nível de consciência sobre o que está ocorrendo no emocional, no corpo e o reconhecimento de que se está sofrendo. Ele exige um grau específico de humildade e de percepção de sua condição humana: um ser com limites e de que algo saiu do “controle”.

Por incrível que pareça, muitos pacientes, mesmo diante de crises graves, conseguem não reconhecer a crise: ou porque se esquivam dizendo frases como: “a vida é assim mesmo”, ou porque tem um nível de consciência muito baixo de si, ou mesmo uma forma de auto-exigência em que não admite qualquer forma de fragilidade em si mesmo: embora isso vá acarretar derrotas pessoais terríveis.
O comportamento seguinte (“Aceitar a responsabilidade pessoal de fazer algo”), indica o fato de que a pessoa com um problema, tem a noção de que é a única que pode resolvê-lo de forma direta. Mesmo sabendo que precisa da ajuda de outros para a resolução, sabe que “o pedir a ajuda” também é um comportamento a ser emitido por ela mesma.

Isso não quer dizer que significa assumir a “culpa” do problema. O problema pode ter sido causado por outrem, mas sabe que a possibilidade de resolução está nas suas mãos. O olhar e a postura segue a seguinte ideia: “quem causou o problema não me importa, importa que “eu vou resolver o problema: ele está em minhas mãos, e eu vou fazer tudo que estiver em meu alcance para sair dessa situação em que me encontro”.

O comportamento (“Construir uma cerca para delimitar os problemas pessoais que precisam ser resolvidos”), reflete um processo de discriminação e de seleção.
Na medida que alguém passa a olhar para si mesmo, percebe uma ampla gama de comportamentos e de contextos problema que precisam ser mudados. Mas, os comportamentos e contextos significativos para a resolução da “crise pessoal”, naquele momento específico da vida não são todos os que foram percebidos: às vezes trata-se apenas de uma classe de comportamentos, relacionada a um contexto específico.

É nesse momento, que a ajuda de um psicoterapeuta experiente entra em cena. Ele sabe, pelos casos bem sucedidos que já atendeu no passado, quais serão os comportamentos alvo a serem trabalhados. Sua intuição é produto de sua experiência. Ou mesmo, sua história anterior, com contingências semelhantes, pode fazer com que ele encontre atalhos que permitam menos tempo e mais eficácia na resolução do problema em pauta.
Nesse momento do processo de resolução da crise, o comportamento seguinte se faz necessário (“obter ajuda material e emocional de outros indivíduos e grupos “).

A obtenção da ajuda de outros exige, primeiro, a aceitação de que eu não posso resolver sozinho o problema, ou de que contar com a ajuda de alguém pode tornar a resolução mais próxima, ou mesmo, mais rápida. Apenas a relação com o outro pode trazer: “mais segurança emocional”, “outra perspectiva sobre o problema em si, e o que pode ser feito para resolvê-lo”, “possibilidades materiais diversas”, “alguém que conhece alguém para mudar no processo”.

Qualquer Psicoterapeuta sabe, ou pelo menos deve saber, uma verdade que a experiência de ouvir muitas histórias ensina: um problema sempre envolve no mínimo duas pessoas, e sua resolução jamais ocorre de forma solitária. Trata-se de um processo interpessoal, que na tentativa de resolver um problema, muitos aprendizados ocorrem. Um processo que sempre faz uma pessoa se tornar alguém mais profundo.

O comportamento de “Adotar outros modelos para resolver os problemas” faz parte de todo processo de desenvolvimento pessoal. Isso significa: ser mais do que se pode ser, diante dos limites do “si-mesmo”. Os “diferentes” modelos que aprendemos ocorrem apenas nas relações com os outros, e não na solidão da vida individual.

A história de relações com o mundo constrói os repertórios comportamentais: inclusive o modo de ver e entender o mundo, além das perspectivas e dos “instrumentos” psicológicos para resolução de problemas que ocorrem ao longo da vida. Parte da aquisição desses repertórios se dá através das imitações dos modelos de comportamentos com os quais nos relacionamos. Por isso, o modo como buscamos resolver problemas estão limitados aos modelos que tivemos ao longo de nossa história.
Estar aberto para outros modelos de resolução de problemas pode ser a chave para um novo entendimento e uma nova forma, necessária, para a resolução de um problema específico.
Envolver-se em um processo psicoterápico significa entrar em contato com outros modelos de comportamentos para resolução de problemas. Modelos de uma pessoa com outra história de vida, e portanto, com modelos de resolução de problemas distintos. Mas os modelos adquiridos em psicoterapia deve significar algo mais: são modelos advindos da Psicologia como Ciência. Embasados em teorias consistentes e pesquisas devidamente testadas. Modelos de entendimento do comportamento humano, de formas de analisar as experiências com o mundo, de encarar emocionalmente os problemas: com mais serenidade, confiança e diversas outras formas de modelo: processos que podem ocorrer conscientemente ou inconscientemente.

O comportamento de resolver problemas exige tempo. Tempo para se aprender mais sobre as variáveis que envolvem o problema, para buscar e emitir uma variedade de comportamentos, em contextos distintos, e observar seus impactos nos ambientes selecionados para agir.

Por isso o “Comportamento de resistir o tempo necessário para a resolução do problema” é fundamental na resolução de crises pessoais. Resistência a ansiedade devido às incertezas do processo, resistência à frustração por ter que seguir um caminho de tentativas e erros, resistência a sentimentos ligados a perdas.

O autoconhecimento ou o que foi denominado como o comportamento de “se auto-avaliar de forma honesta”, significa: discriminar os reais repertórios que a pessoa tem, e quais são os pontos fortes que podem ser utilizados naquele período difícil da vida. E, por outro lado, quais são os aspectos mais frágeis, que vão precisar de suporte afetivo e relacional.

Como posso fazer para fortalecer alguns repertórios ainda incipientes, ou para desenvolver habilidades que não tenho? Elaborar para si mesmo essas perguntas exige humildade e honestidade consigo mesmo. A percepção de que não sou onipotente, que tenho limites e preciso da ajuda de outras pessoas: com mais habilidades que “eu”.

Ter passado por “experiências com crises anteriores” pode ter fornecido contingências que desenvolveram habilidades para lidar com a crise atual. Além disso, o sucesso em ter superado outras crises no passado pode ter forjado uma condição emocional que é a pedra angular para superar crises: autoconfiança.

A autoconfiança permite que o comportamento flua de forma natural, e que a pessoa emita um a um os encadeamentos de comportamentos necessários para a resolução de problemas complexos. Pode fornecer a calma ou a “paciência” necessária para agir na hora certa.
Por sua vez, a flexibilidade comportamental se relaciona a emissão comportamentos
discriminativos em ambientes distintos. Trata-se de um outro termo para "criatividade": estar aberto para agir de uma forma nova. Um ato nunca antes experimentado. Atos que podem mudar às condições que geraram a crise: que podem dar início a uma nova etapa da vida. Atos capazes de transformar o ambiente, na direção de algo mais favorável ao bem estar e a saúde comportamental.

No post, foram abordados 10 comportamentos que são importantes para trabalhar em situações de crise. Mas o Dr. Linderman elaborou 12. Os outros dois não foram discutidos, por estarem mais relacionados a personalidade e não a comportamentos.

Wilton de Oliveira
ITECH-Campinas

Diamond, J. (2019) Reviravolta: Isolar defeitos, preservar qualidades e superar problemas. Ed. Record: Rio de Janeiro.
(Diamond, descreve de forma muito clara o estudo de Lindemann, e o aplica de forma
muito engenhosa a uma análise geopolítica).

LINDEMANN, Erich.Beyond Grief: Studies in Crisis Intervention. Nova York: Jason Aronson, 1979.


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